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Você viu o brilho da
dor nos olhos das pessoas.
Você sofreu com elas.
Você pisou nas cinzas,
na brasa e respirou a fumaça do incêndio.
Você sentiu o cheiro
da morte e quase pisou na poça de sangue.
Você tropeçou no
cadáver e quase levou um tiro. Você estava no confronto.
Você ouviu os gritos
nas entranhas da rebelião.
Você contou os mortos.
Você levou porrada da
polícia e foi ameaçado pelo traficante.
Você esteve no coração
do lar daquela família dilacerada pela violência.
Você viu de perto a
fome e o desemprego.
Ninguém melhor que
você sabe o significado físico da miséria, da exclusão social, da má
distribuição de renda.
Porque você esteve
também em banquetes nababescos.
Você desceu as ruas da
favela e subiu nos elevadores da FIESP.
Você sabe o que é
Brasilândia, Jardim Ângela, SESC Itaquera
e sabe o que é
Leopoldo, Fasano e Credicard Hall.
Você viu – muito bem –
onde foi enfiado o dinheiro dos impostos.
Você provou um pouco
da vida de quem tem muito, muito mais do que necessitaria ter.
Você comeu caviar.
Você viu a luz na
expressão do artista e desejou a boca, as pernas, os seios da modelo.
Você se excitou. Se
duvidar, você a amou.
Você fitou o semblante
do homem santo, você orou com a multidão. Você foi quase santo.
Você quase beijou o
umbigo da passista e sambou na avenida. Foi pagão entre pagãos.
Você aprisionou a alma
do Ianomâmi e ainda tem sua alma presa em uma aldeia.
Você viveu a glória
das vitórias e o desespero das derrotas.
Você esteve sempre
ali, na cara do gol.
Você ensurdeceu com o
ronco dos motores e aspirou o cheiro de combustível nos cock pits.
Você chorou com toda
aquela gente a morte do campeão.
Você estava lá quando
o povo foi para as ruas e derrubou o presidente. Você se misturou aos
cara-pintadas.
Na festa democrática
das eleições você também estava lá. E se emocionou.
Você se angustiou com
a dor das diferenças, com a tragédia das fatalidades. Você sofreu.
Você bebeu o riso das
grandes euforias e pôs nos olhos os brilhos das apoteoses. Você viveu!
Você viveu muito! Você
vive intenso.
Por isso você bebe.
Você fuma, ri alto, protesta, provoca, faz festa.
E é tachado de maluco,
transviado, inconseqüente, alucinado, irresponsável, inconveniente…
Também assim chamam os
poetas.
Por isso, não ligue
para os humores daqueles que não te entendem e, sentados atrás da
mesa, na frieza dos monitores e do ar condicionado,
arautos do “dead line”
aguardam, impacientes, sua foto.
Entenda: eles só podem
viver depois do fechamento…
Texto de:
Maurilo Clareto,
repórter fotográfico.
Maurilio Clareto é um dos profissionais mais importantes e
respeitados do fotojornalismo. Publicou em toda a imprensa nacional e
nos maiores jornais e revistas do mundo.
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